Natal em outros países vai de livros a frango frito

Oito países mostram como os costumes natalinos mudam de lugar para lugar, com festas nas ruas, personagens do folclore e comemorações que avançam por janeiro.

Pessoas carregando grandes lanternas circulares iluminadas, com desenhos de estrelas, diante de uma igreja à noite.
Lanternas gigantes das Filipinas em uma celebração noturna. Foto: reprodução/Pexels.

Se alguém lhe oferecesse um balde de frango frito como ceia de Natal, você talvez achasse que o jantar tinha sido improvisado. No Japão, essa escolha faz parte de um costume bastante conhecido. Na Islândia, os livros ganham um espaço especial entre os presentes, e a noite pode continuar com a leitura do que acabou de ser desembrulhado.

Algumas tradições natalinas têm séculos; outras se espalharam depois de uma campanha publicitária.

Esses costumes também variam dentro de cada país. Uma celebração pode pertencer a uma cidade, ser especialmente importante para uma comunidade religiosa ou ganhar um jeito diferente em cada família.

No Japão o frango frito ganhou lugar na ceia

O KFC lançou sua primeira campanha natalina no Japão em 1974. A proposta era vender frango frito para as festas de Natal. Com o passar dos anos, a associação se firmou, e os menus especiais da rede passaram a fazer parte das comemorações de muitos consumidores.

Uma ação de marketing acabou se transformando em costume natalino. A rede também recebe encomendas antecipadas. Para quem aderiu à tradição, comprar o jantar pode exigir planejamento, como acontece por aqui com uma ceia encomendada.

O frango divide a cena com o Christmas cake, um bolo que, em sua versão mais conhecida, combina pão de ló, chantili e morangos. A Organização Nacional de Turismo do Japão também destaca os passeios sob as luzes de Natal e os jantares românticos entre os hábitos da época.

Assim, a mesma decoração que lembra uma reunião em família para um brasileiro pode servir de cenário para um encontro a dois. O Natal japonês reúne usos diferentes da data, além das celebrações de sua comunidade cristã.

No México as posadas começam antes do Natal

Entre 16 e 24 de dezembro, as posadas ocupam um lugar importante no calendário natalino mexicano. O nome remete a hospedagem, e a celebração encena a busca de Maria e José por abrigo em Belém antes do nascimento de Jesus.

Na forma tradicional, há cantos e velas durante o pedido de acolhimento. Depois, a reunião continua com comida e convivência. A festa pode acontecer em casas e comunidades, com diferenças na organização e no tamanho dos encontros.

É aí que entra um objeto que muita gente conhece de outras festas: a piñata. A Secretaria de Cultura do México explica que a versão de sete pontas representa os sete pecados capitais. A brincadeira de quebrá-la para liberar o recheio de frutas e doces convive, portanto, com um simbolismo religioso.

As posadas dão à espera pelo Natal uma programação própria. Antes de a ceia chegar à mesa, já houve dias de encontros, cantoria e festa.

Piñata mexicana com pontas e papel colorido, exposta entre máscaras e outros enfeites.
Piñata mexicana decorada com papel colorido. Foto: reprodução/Pexels.

A piñata mostra como uma brincadeira pode se tornar parte da comemoração. Para quem quer levar esse lado mais participativo à reunião em casa, reunimos 3 brincadeiras de Natal para fazer em família, com propostas de bingo, troca de presentes e uma disputa rápida de atenção.

Na Colômbia as velas anunciam as festas

A noite de 7 de dezembro tem um brilho particular na Colômbia. Na Noche de las Velitas, famílias e vizinhos acendem velas e lanternas, levando a comemoração para a frente das casas e outros espaços de convivência.

A Prefeitura de Bogotá relaciona a tradição à Imaculada Conceição, celebrada em 8 de dezembro. A noite anterior se tornou uma ocasião para reunir pessoas e marcar o começo das festividades natalinas.

Em Villa de Leyva, no departamento de Boyacá, esse período também é conhecido pelo Festival de Luzes. Varandas, calçadas e terraços recebem velas e lanternas, com celebrações associadas às noites de 7 e 8 de dezembro.

O detalhe muda o lugar da festa: o Natal começa a ser vivido também na vizinhança, semanas antes da ceia. O gesto de acender uma vela cria uma ocasião para sair à porta e encontrar quem mora por perto.

Nas Filipinas as lanternas viram um espetáculo

O parol é uma lanterna natalina cuja forma tradicional lembra uma estrela. Seu desenho evoca a estrela de Belém, associada ao caminho dos Reis Magos até Jesus. É um símbolo presente na decoração de Natal filipina, com versões de diferentes materiais e tamanhos.

Em San Fernando, na província de Pampanga, essa tradição ganhou uma escala própria. O Festival das Lanternas Gigantes reúne peças feitas para uma competição entre comunidades locais. As luzes acendem e apagam em sequências que criam desenhos e acompanham a música, como mostram os registros do festival.

Na Islândia os livros e o folclore dividem a festa

Dar livros de presente e passar parte da noite de 24 de dezembro lendo é um costume associado à Islândia. Ele se liga ao Jólabókaflóð, expressão traduzida como “inundação de livros de Natal”: o período em que lançamentos chegam ao mercado para as compras de fim de ano.

O Visit Iceland, guia oficial de turismo do país, relaciona a consolidação dessa prática à Segunda Guerra Mundial. Em um contexto de restrições a diversas mercadorias, os livros se tornaram uma opção de presente. O calendário editorial e a troca de obras no Natal ajudaram a sustentar o hábito.

A graça está em reservar tempo para o presente depois de abri-lo. O livro pode começar a ser lido naquela mesma noite, enquanto a reunião continua em casa.

O folclore acrescenta outro ritual à espera pela data. Os treze Yule Lads, chamados de jólasveinar em islandês, são personagens travessos que chegam um por dia, de 12 a 24 de dezembro. Crianças deixam um sapato junto à janela para receber pequenos presentes. Na história, quem se comportou mal pode encontrar uma batata no lugar da surpresa esperada.

Os personagens têm manias próprias, como bater portas e roubar salsichas. Esse lado brincalhão do Natal divide espaço com uma tradição que convida a abrir um livro.

Na Suécia um bode de palha ganha tamanho gigante

O bode de Natal, ou julbock, tem uma história anterior à presença do Papai Noel nos costumes suecos. Segundo o Nordiska museet, museu de história cultural da Suécia, a figura chegou a ocupar o papel de quem entregava presentes. Hoje, aparece sobretudo como uma decoração de palha.

A cidade de Gävle levou o enfeite para outra escala. Desde 1966, monta um bode gigante para o período natalino. O histórico mantido pelo Visit Gävle conta que a iniciativa surgiu entre comerciantes interessados em atrair visitantes para a região.

O bode acabou conhecido também pelos problemas que enfrentou. Em vários anos, foi destruído por incêndios provocados e outros ataques. Esses episódios são atos de vandalismo, e há casos de responsáveis que foram identificados e punidos.

A montagem do animal continua sendo parte da programação da cidade. Seu destino, acompanhado até por webcam, acrescenta uma dose de suspense a uma decoração feita para ficar de pé durante as festas.

Cabra de Gävle feita de palha, com neve sobre o corpo, detalhes vermelhos e chifres iluminados.
Cabra de Gävle coberta de neve e iluminada à noite. Foto: reprodução/Pexels.

Na Espanha os presentes também chegam em janeiro

Para muitas crianças espanholas, a espera pelos presentes continua depois do Natal e da virada do ano. O dia 6 de janeiro, Dia de Reis, é uma data importante para essa troca. Na tradição, são os Reis Magos que levam os presentes às casas durante a noite anterior.

Antes disso, na tarde ou noite de 5 de janeiro, as cabalgatas colocam os Reis nas ruas em desfiles com carros alegóricos. O portal oficial de turismo da Espanha descreve a passagem dos personagens como um dos momentos marcantes das festas, com crianças à espera de sua chegada.

A comemoração ainda tem um doce próprio: o roscón de Reyes. A rosca natalina pode esconder uma pequena figura, encontrada por alguém ao cortar sua porção. É tradicional saboreá-la na tarde do dia 5 ou durante o dia 6, como explica o Spain.info.

O Dia de Reis prolonga o calendário das festas e mantém a expectativa das crianças por mais alguns dias. Depois da noite de Natal, ainda há um desfile para ver e presentes para abrir.

Na Etiópia o calendário leva o Natal a janeiro

O Natal da tradição ortodoxa etíope, conhecido como Genna ou Gena, é celebrado em janeiro, geralmente no dia 7 no calendário gregoriano usado no Brasil. A data acompanha o calendário da Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo.

Para seus fiéis, a preparação envolve um período de jejum, seguido de celebrações religiosas. A Agência de Notícias Etíope descreve pessoas vestidas com roupas brancas tradicionais e serviços nas igrejas que atravessam a madrugada.

Lalibela é um dos lugares de peregrinação durante a festa. Suas igrejas escavadas na rocha dão um cenário particular às cerimônias. Depois da celebração religiosa, a data também reúne famílias e vizinhos para compartilhar a comida.

Quando janeiro começa no nosso calendário, a preparação para o Genna ainda está em andamento.

Construção escavada na rocha, vista de cima, com paredes de pedra e passagens estreitas ao redor.
Construção escavada na rocha na Etiópia. Foto: reprodução/Pexels.

E se a troca de livros virasse parte do seu Natal?

A tradição islandesa mostra que o presente não precisa terminar quando o embrulho é aberto. Escolher um livro para alguém e reservar um momento da noite para começar a leitura é uma ideia simples que dá para adaptar em casa, mesmo a milhares de quilômetros da Islândia.

E, se estiver faltando inspiração para escolher o livro, o Fora de Ângulo reuniu 10 livros que ficam na cabeça muito depois da última página. A seleção passa por clássicos brasileiros e estrangeiros, contos e relatos de sobrevivência, com histórias que continuam rendendo pensamentos mesmo depois do fim.

Entre tantas formas diferentes de celebrar o Natal, talvez essa seja uma das mais fáceis de levar para a própria casa: dar uma boa história e algum tempo para vivê-la.