
Em Belo Horizonte, avenidas atravessam os quarteirões na diagonal. No centro de Goiânia, grandes vias apontam para a Praça Cívica. O desenho das ruas guarda pistas de como essas cidades foram imaginadas.
Uma cidade planejada tem um desenho inicial pensado para orientar sua construção. Há decisões prévias sobre por onde passarão as ruas e como serão distribuídos os espaços públicos. Com o tempo, ela cresce e muda, inclusive para além do projeto original.
A seleção a seguir reúne seis exemplos de épocas diferentes. Cinco dessas cidades foram criadas para ser capitais. Maringá tomou outro caminho, ligado à venda de terras e ao crescimento do norte do Paraná.
1. Teresina e a escolha do rio
Mais de um século antes da inauguração de Brasília, Teresina já começava a história de uma capital planejada. Fundada em 1852, a cidade substituiu Oeiras como sede da província do Piauí.
O lugar escolhido tinha uma vantagem importante: a ligação com os rios. A história de Teresina registrada pela prefeitura destaca a posição da nova capital e a navegação pelo Parnaíba e pelo Poti como motivos da escolha. A criação da nova capital foi conduzida por José Antônio Saraiva, conhecido como Conselheiro Saraiva.
No núcleo inicial, ruas retas e quarteirões regulares formavam um desenho parecido com um tabuleiro de xadrez. Para entender esse começo, vale localizar o centro antigo junto ao Parnaíba. A posição da cidade ajudava a atender às necessidades do governo e do comércio.

2. Belo Horizonte e as avenidas na diagonal
Inaugurada em 1897 para substituir Ouro Preto como capital de Minas Gerais, Belo Horizonte teve seu projeto elaborado pela equipe comandada pelo engenheiro Aarão Reis. A região escolhida já abrigava o arraial do Curral del Rei, e parte de suas construções foi demolida para dar lugar à nova capital.
Uma das referências para reconhecer o planejamento original de Belo Horizonte é a Avenida do Contorno. Ela delimitava a área urbana prevista no projeto. Dentro dessa área, o desenho combina quarteirões regulares com avenidas que os atravessam na diagonal.
A Avenida Afonso Pena é um bom ponto de partida para observar essa organização: ela já fazia parte do projeto inicial e continuou importante à medida que a cidade se expandiu. Hoje, BH vai muito além da Contorno, mas o centro conserva parte desse desenho.

3. Goiânia e o encontro das avenidas
A construção de Goiânia teve seu marco inicial em 1933, com o lançamento da pedra fundamental. A nova cidade foi criada para receber a capital de Goiás, até então instalada na cidade de Goiás. O primeiro projeto foi elaborado por Attilio Corrêa Lima.
No centro, a Praça Cívica funciona como uma chave para entender a organização das ruas. As avenidas Goiás, Araguaia e Tocantins convergem para ela, colocando o espaço do governo em destaque. Esse encontro continua fácil de reconhecer numa vista aérea.

4. Maringá e as ruas que acompanham o terreno
Fundada em 1947, Maringá faz parte da história da expansão urbana no norte do Paraná, ligada à agricultura e à venda de terras. A Companhia de Terras Norte do Paraná foi responsável pela criação da cidade.
O urbanista Jorge de Macedo Vieira desenhou avenidas largas, canteiros e ruas que procuravam acompanhar a inclinação natural do terreno. Planejar também pode significar aproveitar as curvas do lugar. A presença do verde fazia parte dessa proposta.
Há uma curiosidade no histórico de Maringá publicado pela prefeitura: o autor do projeto nunca esteve na cidade. Ele trabalhou com informações e fotografias aéreas recebidas com a ajuda da companhia.

5. Brasília para além dos prédios famosos
Inaugurada em 1960 para ser a capital do país, Brasília teve seu Plano Piloto desenhado por Lúcio Costa. Oscar Niemeyer projetou edifícios que se tornaram símbolos da cidade, como o Congresso Nacional. O desenho das ruas e das moradias também fazia parte da proposta.
Um eixo reto organiza os espaços dos principais prédios públicos; outro, curvo, acompanha as áreas residenciais das asas Norte e Sul. Nessas áreas estão as superquadras: grandes quadras residenciais com edifícios entre espaços verdes, pensadas também para a circulação e o convívio dos moradores.
Para perceber essa ideia, vale olhar uma superquadra de perto, incluindo o espaço livre entre os prédios e os térreos abertos entre as colunas dos edifícios. O projeto aparece tanto nessa escala cotidiana quanto nos grandes monumentos.

6. Palmas e o desenho de uma capital nova
A criação do Tocantins, em 1988, trouxe a necessidade de uma sede para o governo estadual. Palmas foi fundada em 1989, e a instalação da capital ocorreu em 1990. São momentos diferentes da mesma história.
O projeto foi elaborado por Luiz Fernando Cruvinel Teixeira e Walfredo Antunes de Oliveira Filho. Em um relato sobre a criação de Palmas, Walfredo descreve a organização em grandes quadras e o papel da Avenida Teotônio Segurado.
A Praça dos Girassóis, onde se concentram edifícios do governo estadual, e as grandes avenidas ajudam a reconhecer a estrutura inicial. Para quem observa do alto, o tamanho dos quarteirões e os espaços entre as vias são características marcantes.
No mesmo relato, o arquiteto explica que a intenção era reunir diferentes usos nas quadras, com serviços próximos das moradias. A fala ajuda a separar o que foi imaginado no projeto daquilo que acabou sendo construído ao longo dos anos.

O plano inicial não encerra a história
Ser planejada descreve uma parte da história da cidade. A qualidade de vida também depende de transporte, moradia, acesso aos serviços e manutenção dos espaços públicos. Um desenho organizado no mapa precisa funcionar para quem vive nele.
Vale observar essas cidades por dois pontos de vista: do alto, para reconhecer as formas, e ao nível da rua, para perceber distâncias, sombra e caminhos disponíveis. Uma praça pode ser o centro de um projeto e, ao mesmo tempo, o lugar por onde alguém passa todos os dias.



