
Jericó, Biblos e Damasco ajudam a responder uma pergunta que parece simples: quais são as cidades mais antigas do mundo que ainda têm moradores? As três ficam no Oriente Médio e guardam vestígios de sociedades que viveram milhares de anos antes da nossa época.
Cada uma, porém, conta uma história diferente. Em Jericó, os registros mais antigos vêm de um sítio arqueológico próximo da cidade atual. Em Biblos e Damasco, a continuidade da ocupação também tem peso. A idade dos primeiros vestígios, o nascimento de uma cidade e a permanência de moradores são coisas diferentes.
O que conta como idade de uma cidade?
Um lugar pode ter sido frequentado por grupos humanos muito antes de receber moradias permanentes. Um povoado, por sua vez, pode existir por séculos ou milênios antes de adquirir organização urbana. Quando essas etapas aparecem misturadas numa lista, datas que parecem comparáveis passam a medir acontecimentos distintos.
Também existe uma diferença entre estar habitada hoje e ter sido habitada sem interrupção desde a origem. Para discutir continuidade, é preciso considerar períodos de abandono, mudanças de localização e transformações do próprio assentamento. Esse cuidado ajuda a entender por que o título de cidade mais antiga depende do critério adotado.
Jericó, Palestina: mais de 10 mil anos de história no oásis

A história mais antiga de Jericó leva a Tell es-Sultan, no Vale do Jordão, na Cisjordânia, Palestina. O sítio fica a noroeste da cidade atual, junto à fonte de ‘Ain es-Sultan. A presença dessa água foi fundamental para a ocupação da área ao longo dos milênios.
Segundo a Unesco, o local guarda depósitos de atividade humana que chegam a cerca de 10.500 a.C. Entre o 9º e o 8º milênio a.C., já havia ali um assentamento permanente de porte considerável, com estruturas como uma torre, um muro e uma vala. Esses vestígios revelam capacidade de planejamento e organização do trabalho coletivo.
O próprio terreno ajuda a contar essa história. Um tell é uma elevação formada pelo acúmulo de vestígios de ocupações sucessivas. Em Tell es-Sultan, as camadas permitem acompanhar mudanças na maneira de construir, morar e organizar a vida em comunidade. O sítio registra tanto a fixação de populações no Neolítico quanto o desenvolvimento de uma cultura urbana na Idade do Bronze.
A data mais antiga não é uma certidão de nascimento da Jericó atual. O Museu Virtual Palestino, do Ministério do Turismo e Antiguidades, descreve hiatos na vida urbana e o deslocamento do povoamento para outros pontos do oásis. Jericó continua habitada, mas as ruínas de Tell es-Sultan e a cidade de hoje precisam ser distinguidas.
É justamente essa longa sequência de experiências que torna o lugar interessante: ali é possível estudar como grupos humanos passaram a viver em assentamentos maiores e mais permanentes, muito antes das cidades como as conhecemos.
Biblos, Líbano: uma cidade ligada à história do alfabeto

Na costa do Líbano, Biblos, também conhecida como Byblos ou Jbeil, oferece um exemplo de ocupação duradoura. A ficha da Unesco descreve o lugar como continuamente habitado desde o Neolítico e relaciona seu início a uma comunidade de pescadores de cerca de 8 mil anos atrás.
A passagem do tempo pode ser percebida nos vestígios de diferentes épocas. Há construções associadas à Idade do Bronze, elementos romanos, uma cidadela do período das Cruzadas e partes da cidade medieval e otomana. O interesse está em observar como essas presenças se acumulam num mesmo lugar.
Biblos também tem uma ligação com algo muito próximo do nosso cotidiano: a escrita. A Unesco destaca o papel da cidade na história e na difusão do alfabeto fenício. Entre os registros citados está a inscrição no sarcófago de Ahiram, uma peça importante para o estudo dessa tradição alfabética.
Essa associação ajuda a olhar para Biblos além de suas ruínas. O lugar guarda evidências de formas de viver, construir e registrar a linguagem que atravessaram diferentes sociedades. A origem do assentamento é anterior ao período pelo qual a cidade se tornou mais conhecida, ligado à civilização fenícia.
A continuidade, aqui, também envolve transformação. Moradores, construções e usos do espaço mudaram muitas vezes. Dizer que a cidade permaneceu habitada não significa imaginar as mesmas casas ou a mesma população preservadas desde o Neolítico.
Damasco, Síria: diferentes épocas no mesmo traçado urbano

A Unesco situa as origens de Damasco no 3º milênio a.C., portanto há mais de 4 mil anos, e a reconhece entre as cidades continuamente habitadas mais antigas do mundo. Sua posição em rotas de circulação e comércio ajudou a torná-la um centro cultural importante.
Há vestígios pré-históricos mais antigos na região, mencionados pela instituição a partir de escavações em Tell Ramad. Eles ajudam a entender a presença humana nos arredores. Para falar da origem da cidade, porém, é preciso distinguir esses assentamentos regionais do desenvolvimento do núcleo urbano de Damasco.
A cidade antiga conserva referências dos períodos helenístico, romano, bizantino e islâmico. Um dos exemplos mais expressivos é a Grande Mesquita dos Omíadas, erguida no século VIII em uma área anteriormente ocupada por um templo romano e uma basílica cristã. O mesmo espaço permite acompanhar mudanças de religião, poder e arquitetura.
Damasco foi a capital do Califado Omíada, mas sua história visível também inclui marcas de épocas posteriores, como construções medievais e otomanas. Traços do planejamento greco-romano permanecem na organização da cidade antiga, mostrando como uma estrutura urbana pode influenciar o lugar durante muitos séculos.
Essa é uma das partes mais interessantes de conhecer uma cidade tão antiga: os vestígios não pertencem todos ao mesmo momento. Uma mesquita, uma muralha e uma residência podem ter idades bastante diferentes, mesmo quando aparecem lado a lado. A antiguidade da cidade vem dessa trajetória, e não de cada edifício isoladamente.
As datas lado a lado
As referências abaixo ajudam a comparar as três histórias. Elas correspondem a tipos diferentes de evidência, por isso não servem para ordenar as cidades apenas pelo número mais antigo.
| CIDADE | REFERÊNCIA DE ANTIGUIDADE | O QUE ELA INFORMA |
| Jericó | Cerca de 10.500 a.C.: depósitos de atividade humana em Tell es-Sultan. | Antiguidade do sítio arqueológico próximo da cidade atual; não comprova uma vida urbana ininterrupta desde essa data. |
| Biblos | Cerca de 8 mil anos: comunidade inicial de pescadores, segundo a Unesco. | Ocupação desde o Neolítico, descrita pela instituição como contínua. |
| Damasco | 3º milênio a.C.: origens da cidade na síntese da Unesco. | Trajetória urbana antiga, distinta dos vestígios pré-históricos existentes nos arredores. |
A idade de uma cidade e a data de criação de um país são coisas diferentes. Um contraste curioso aparece dentro de Roma: embora esteja cercado por uma cidade de origem antiga, o Estado da Cidade do Vaticano surgiu apenas em 1929. Na matéria O menor país do mundo fica dentro de Roma, mostramos como funciona esse território independente de 0,44 km².



