
Um expediente termina, outro começa, e a sensação é de que a vida importante ficou para depois. É desse incômodo que parte Viver, o filme mais antigo desta seleção. E é uma boa porta de entrada para uma pergunta que o cinema sabe complicar: o que, afinal, merece o nosso tempo?
Os cinco filmes a seguir foram escolhidos pela força das histórias e pela maneira como aproximam grandes dúvidas de situações íntimas. Cada um merece a sessão por um motivo diferente. As apresentações preservam as principais viradas, para que você possa descobrir as respostas junto com os personagens.
1. Viver (1952)

Direção: Akira Kurosawa. Título original: Ikiru.
Kanji Watanabe, vivido por Takashi Shimura, tem um emprego estável e uma rotina que parece se bastar. Ao descobrir que tem câncer no estômago, percebe que os anos de serviço não respondem à pergunta mais urgente: o que fez com a vida que teve?
Os corredores da repartição e as pilhas de papel dão forma a esse vazio. Cada pessoa sabe encaminhar a demanda para outra mesa, enquanto a solução continua distante. A ocupação constante pode esconder uma vida adiada. A busca de Watanabe ganha força quando se traduz em algo útil para outras pessoas.
Viver pede paciência com rostos, pausas e gestos pequenos. Em troca, oferece um modo de olhar para o trabalho que passa pela utilidade real do que fazemos. Se uma agenda cheia costuma valer como prova de importância, esse clássico ajuda a desconfiar da conta.
2. Na Natureza Selvagem (2007)

Direção: Sean Penn. Título original: Into the Wild.
Logo depois de se formar, Christopher McCandless, interpretado por Emile Hirsch, rompe com o caminho que sua família espera dele e sai pela América do Norte. A viagem o leva ao Alasca. Sean Penn adaptou para o cinema o livro de Jon Krakauer sobre essa história real.
As paisagens e as canções de Eddie Vedder tornam sedutora a ideia de abrir mão do dinheiro e descobrir quanto é suficiente para viver. Há prazer nessa recusa a uma existência inteiramente planejada. Também há uma confiança enorme na própria capacidade de dar conta do mundo.
O filme fica mais interessante quando acompanhamos as pessoas que Christopher encontra e aquelas com quem corta contato. Escolher a própria vida envolve o efeito das nossas decisões sobre os outros. A solidão pode parecer liberdade num momento e ter outro peso mais adiante.
É uma boa escolha para quem está cansado das expectativas alheias. Vale observar tanto o entusiasmo da partida quanto a dificuldade do personagem em aceitar dependência e cuidado. A pergunta que fica é incômoda: para viver de acordo consigo, é preciso ir tão longe de todo mundo?
3. Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004)

Direção: Michel Gondry. Título original: Eternal Sunshine of the Spotless Mind.
Joel, de Jim Carrey, descobre que Clementine, de Kate Winslet, passou por um procedimento capaz de apagar as lembranças do relacionamento dos dois. Ferido, ele procura o mesmo serviço. O que deveria encerrar uma história abre uma viagem desordenada pelas memórias desse amor.
Michel Gondry transforma o roteiro de Charlie Kaufman em um mundo instável. Espaços perdem detalhes, cenas escapam e o que era banal ganha a importância de algo prestes a desaparecer. A fantasia se torna íntima: esquecer alguém significaria perder também pedaços da vida em que essa pessoa esteve.
O valor de uma relação não cabe apenas no jeito como ela terminou. Essa é uma das leituras possíveis do filme, que permite reconhecer beleza e desgaste dentro da mesma história. Lembrar com carinho também não resolve os motivos que fizeram o casal se machucar.
Há algo especialmente forte em ver Carrey tão contido, longe da explosão física de suas comédias. Joel tem dificuldade de dizer o que sente; a forma do filme acaba dizendo por ele. Vale deixar que a montagem faça o caminho, sem tentar colocar tudo em ordem cedo demais.
4. A Chegada (2016)

Direção: Denis Villeneuve. Título original: Arrival.
Quando naves extraterrestres aparecem em diferentes pontos da Terra, a linguista Louise Banks, interpretada por Amy Adams, é chamada para tentar estabelecer contato. Antes de descobrir o que os visitantes querem, ela precisa encontrar uma maneira de conversar com eles. É uma escolha bonita para uma ficção científica: dar protagonismo ao trabalho paciente de formular perguntas.
Cada tentativa de comunicação exige cuidado com o contexto e disposição para abandonar uma hipótese. A pressa dos governos torna esse esforço ainda mais difícil. Lido por esse ângulo, o filme fala de um problema próximo: escutar alguém exige admitir que a nossa primeira interpretação pode estar errada. A distância entre Louise e os visitantes torna visível uma dificuldade que também existe entre pessoas que falam a mesma língua.
Villeneuve trabalha a escala das naves, os sons e os silêncios para fazer o desconhecido pesar. O filme pede atenção à maneira como suas cenas se conectam e cresce quando a investigação ganha uma dimensão pessoal. É a escolha desta lista para quem gosta de montar relações entre imagens e sair da sessão repensando o que viu.
5. Questão de Tempo (2013)

Direção: Richard Curtis. Título original: About Time.
Tim, vivido por Domhnall Gleeson, descobre que pode voltar a momentos do próprio passado. No começo, usa o poder para melhorar sua vida amorosa. Mary, interpretada por Rachel McAdams, parece ser a grande razão para tentar acertar o que deu errado.
Há uma vantagem desconfortável nesse romance: Tim pode ensaiar encontros que Mary vive pela primeira vez. O filme trata essa assimetria com leveza, e cabe ao espectador perceber também o que ela deixa de fora. A fantasia de corrigir tudo tem pontos cegos.
A força da história cresce na relação de Tim com o pai, interpretado por Bill Nighy. Richard Curtis dá espaço ao afeto que aparece em conversas e hábitos compartilhados. Aos poucos, a vontade de tornar cada situação perfeita perde espaço para o interesse pelo que já existe nela.
Um dia pode valer muito mesmo quando nada extraordinário acontece. Essa é a ideia mais bonita do filme, e a razão para fechar a seleção com ele. Há bastante sentimentalismo, mas também humor e atenção à vida doméstica. É uma porta de entrada acolhedora para o tema, especialmente se você prefere começar por um romance.
Qual filme mudou a maneira como você enxerga a própria vida?
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