
A concha do orelhão foi desenhada para ajudar uma pessoa a conversar numa calçada barulhenta. O formato que virou parte da paisagem brasileira nasceu de um problema de acústica e de uma escolha cuidadosa de materiais. Por trás dele estava a arquiteta Chu Ming Silveira.
O orelhão abre esta seleção, que também reúne o soro antiofídico específico, o 14-bis, a urna eletrônica brasileira e o escorredor de arroz. O critério foi combinar impacto histórico com a engenhosidade da solução. São cinco boas histórias para entender o que cada criação trouxe de novo.
1. Orelhão, a concha que protege a conversa

Em 1971, Chu Ming Silveira chefiava o Departamento de Projetos da Companhia Telefônica Brasileira, a CTB. Nascida em Xangai e radicada no Brasil desde criança, ela recebeu o desafio de projetar uma proteção para telefones públicos que fosse resistente e tivesse custo de produção viável.
O projeto para áreas externas, chamado Chu II, usava fibra de vidro e uma forma inspirada na casca do ovo. A cúpula precisava suportar sol e chuva e ajudar a diminuir a interferência do ruído na conversa. Havia também uma versão de acrílico para ambientes internos, o orelhinha. O acervo da arquiteta preserva o memorial com as decisões de desenho e acústica.
A criação brasileira está nesse protetor de telefone público e em seu desenho característico. Os primeiros orelhões chegaram às ruas do Rio de Janeiro e de São Paulo em janeiro de 1972. A forma tornou-se reconhecível a ponto de ganhar um nome popular que explica o objeto antes de qualquer ficha técnica.
É um caso em que o design entra diretamente no uso: a curva da peça participa da experiência de quem precisa ouvir e ser ouvido. Para uma ligação feita em plena rua, esse detalhe fazia diferença.
2. Soro antiofídico específico, a contribuição de Vital Brazil
Quando Vital Brazil começou a pesquisar venenos de serpentes, outros cientistas, como o francês Albert Calmette, já trabalhavam com antivenenos. O médico brasileiro avançou sobre uma questão decisiva: o soro preparado contra um tipo de veneno não neutralizava necessariamente o de outras serpentes.
A contribuição de Vital Brazil foi demonstrar a especificidade dos soros antiofídicos. Para funcionar, os anticorpos do produto precisavam reconhecer e neutralizar as toxinas do veneno envolvido. Seus estudos distinguiram, por exemplo, as necessidades de tratamento dos envenenamentos por jararacas e por cascavéis.
O Butantan começou a produzir soros antiofídicos em 1901. O processo utiliza anticorpos obtidos após a imunização de animais, como os cavalos, e sua preparação envolve etapas de processamento e controle. A palavra “específico”, portanto, explica o centro da inovação: a relação entre o veneno e os anticorpos capazes de combatê-lo.
Em 1917, Vital Brazil recebeu a patente de seu processo e a doou ao governo paulista. A importância dessa criação aparece no tratamento de acidentes com serpentes, um problema de saúde pública para o qual o pesquisador ajudou a construir uma resposta científica.
3. 14-bis, o avião de Santos Dumont diante do público

Em Paris, em 1906, Santos Dumont colocava à prova o 14-bis. O brasileiro já era conhecido por suas experiências com balões e dirigíveis; agora, trabalhava com uma aeronave motorizada mais pesada que o ar. As demonstrações públicas davam ao projeto uma plateia capaz de acompanhar o que estava acontecendo.
No voo de 12 de novembro daquele ano, o 14-bis percorreu 220 metros em 21,5 segundos. A Federação Aeronáutica Internacional, a FAI, identifica esse feito como o primeiro recorde oficial da entidade. A distância, o tempo e a observação do voo transformavam a experiência em um resultado que podia ser registrado.
Esse marco faz parte de uma história com vários pioneiros. Os irmãos Wright já haviam realizado voos motorizados nos Estados Unidos em 1903. O 14-bis entra aqui como uma criação de Santos Dumont com um feito próprio: um voo público que se tornou referência na consolidação da aviação e de seus recordes.
4. Urna eletrônica brasileira, um projeto coletivo
A urna eletrônica brasileira começou a ser desenvolvida em 1995, quando o Tribunal Superior Eleitoral reuniu uma comissão técnica com participação de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe, e do Centro Técnico Aeroespacial, o CTA. A autoria envolve uma equipe e o trabalho da Justiça Eleitoral.
O desafio incluía construir uma máquina compacta, transportável e fácil de usar num país extenso. O equipamento reuniu tela, teclado e processamento em uma só unidade. O teclado numérico semelhante ao de um telefone foi uma escolha de interface para aproximar o eleitor de um objeto que ele já conhecia.
A estreia ocorreu nas eleições municipais de 1996, em 57 cidades, alcançando mais de 32 milhões de eleitores. Em 2000, a votação eletrônica chegou a todos os municípios brasileiros. A história do desenvolvimento contada pelo TSE ajuda a entender a expansão do projeto.
A inovação reuniu registro e apuração dos votos em um equipamento desenvolvido para esse uso. O que parece simples para quem está diante das teclas dependeu de decisões de engenharia e de organização para funcionar em grande escala.
5. Escorredor de arroz, a boa ideia que chegou à indústria
A cirurgiã-dentista Therezinha Beatriz Alves de Andrade Zorowich criou seu escorredor de arroz em 1959. A ideia foi transformada em um protótipo com a ajuda do marido, o engenheiro Solón Ribeiro Zorowich, e chegou à fabricação pela Trol. O utensílio foi apresentado numa feira de utilidades domésticas em 1962.
A solução combina uma bacia, na qual o alimento pode ser lavado, com uma parte perfurada para escoar a água. Ao inclinar o conjunto, o líquido sai pelos furos e os grãos ficam retidos. O mesmo objeto permite passar da lavagem ao escoamento sem transferir o arroz para outro recipiente.

Um boletim de patentes disponibilizado pelo INPI identifica Therezinha como inventora do “novo tipo de bacia-escorregador”, publicação nº 71.404. O desenho e o resumo descrevem dois recipientes conjugados, um deles com orifícios, e explicam a preocupação em evitar desperdício de alimentos.
O licenciamento para a Trol permitiu que a ideia chegasse ao mercado. Segundo a Associação Nacional dos Inventores, Therezinha recebeu royalties, a remuneração pelo uso de sua criação. Um problema observado em casa havia se transformado em produto e também em renda para a inventora.
Qual dessas histórias surpreendeu você?



